OS NOVOS PARADIGMAS DO TEXTO ELETRÔNICO

Marília Levacov


Introdução

O impacto da mídia digital está sendo sentido através de um número crescente de atividades sociais. Todas as tarefas relacionadas com a manipulação, arquivamento, recuperação e disseminação de informações; todos os tipos de trabalhos que lidam diretamente com dados simbólicos, textuais, numéricos, visuais e auditivos, precisam adequar-se a este novo referencial: o digital.

A conversão de mídias diferentes para a forma digital (e a subseqüente facilidade de manipulá-las) requer o desenvolvimento de modelos alternativos de "escrita" e "leitura" que, a priori, requerem o desenvolvimento de modelos alternativos para os papéis sociais tradicionalmente associados ao texto, vale dizer, os do autor, leitor, editor e bibliotecário. Estes novos modelos forçam-nos também a repensar o que o texto, a informação, a alfabetização e a comunicação foram, são e podem vir a ser.

 

Revolução ou Evolução?

Um grande número de autores, entre eles Barret (1989), Ogden (1992) e Adams (1993), tem mencionado que o desenvolvimento, nestas últimas décadas, das tecnologias relacionadas com o computador, nos faz encarar uma nova revolução, tão importante quanto aquela decorrente da introdução dos tipos móveis por Gutenberg. A transição do texto impresso para o eletrônico promete criar uma mudança radical na maneira como acessamos, lemos e entendemos a informação. Paralelamente, a sociedade e a economia atual, cada vez mais, tornam-se information-based.

De acordo com McLuham (1967), Eisentsein (1979), Landow (1992) e um crescente número de autores, estamos vivendo atualmente o que eles identificam como the late age of print (Bolter, 1991, p. 3). Existem duas razões para isso: a overdose de informação disponível e as novas tecnologias eletrônicas que aceleram a mudança, criando um novo suporte e uma nova linguagem. Para tais autores, o computador representa não apenas revolução mas também evolução: após a transição do cursivo para o impresso, assiste-se agora a passagem do impresso para o digital.

Em suas palestras na Universidade de Harvard, agora publicadas como Six Memos to the Next Millenium, Calvino (1988) começa por observar que ele não sabe exatamente o que será a comunicação no futuro, mas que tinha a certeza de que estávamos deixando para trás o "milênio dos livros". Como aponta Rowe (1992), Calvino não quer dizer que a literatura desaparecerá, mas sim a forma pela qual a definimos e na qual estamos acostumados a recebê-la. Os livros não vão desaparecer mas a informação que contêm começa a ter seu suporte alterado. Graças a este novo suporte, o hipertexto, a hipermídia e a multimídia podem emergir como formas narrativas alternativas e, como tais, exigem um autor, uma linguagem, um leitor e uma recepção de um novo tipo.

 

Novas tecnologias

A impressão, que permitiu a produção em massa de livros sem sacrificar sua qualidade, substituiu os manuscritos medievais e o codex como base para o arquivo do conhecimento. O novo livro não pôs fim à arte da caligrafia, nem às tradições religiosas associadas à pintura e ao desenho (como narrativas de histórias) mas cada vez mais as substituiu e expandiu, complementando as suas possibilidades com renovadas vantagens (Bolter, 1991). Mais ainda, a imprensa pode ser vista como um agente de mudança nos séculos que seguiram `a Idade-Média (Eisenstein, 1979), da qual a explosão de conhecimento gerada pelo Iluminismo, no século XVIII, foi um produto.

Atualmente o mundo de Gutenberg encontra-se em colapso. A tecnologia industrial da impressão, suporte tradicional da comunicação, está dando lugar a um novo conceito do que a comunicação pode vir a ser, e este conceito está relacionado ao computador, às novas tecnologias e às suas formas de linguagem (Rowe, 1992). A revolução digital desencadeada por essas tecnologias já afeta nossa relação com a informação e com o próprio texto. Conforme discussão já feita por Adams (1993), conceitos como autor, editor, produto, estão se tornando descentralizados: "qualquer um pode auto-publicar-se e milhares já o fazem" (p. 24) graças aos recursos oferecidos pelo desktop publishing e pela Internet.

Este novo suporte também permite que o conceito de histórias lineares, já desafiadas - como observa Machado (1994) - por Proust, Joyce e autores pós-modernistas - seja implodido, com a introdução de uma forma eletrônica alternativa, não-seqüencial, de produção de textos: o hipertexto (ou hipermídia, como é chamado por quando inclui imagens). A hipermídia também oferece a possibilidade de integrar três indústrias e tecnologias que até recentemente estavam separadas: publishing, computing e broadcasting. Por meio da hipermídia e da multimídia interativa, a relação entre texto e imagens torna-se mais forte, embalada por tecnologias prévias como a fotografia, o vídeo e a televisão. A convergência de todas, sob o signo digital, é uma das contribuições que a revolução eletrônica tem a oferecer.

Ao contrário do que aconteceu à época do advento da imprensa, tal revolução tem sido fartamente documentada. Aliás, o overload de informação é, ao mesmo tempo, uma de suas causas e consequências. Apesar de que muito está sendo escrito sobre a "Era da Informação", como as duas últimas décadas tem sido chamadas, o campo interdisciplinar que elas propiciam está apenas emergindo.

 

Novos Suportes

O texto eletrônico pode ser expandido a novos limites, tanto através do acesso a disquetes, CD-ROMs ou LANs, quanto através de redes eletrônicas mais extensas, a maior das quais é a Internet. Serviços diversos de dispensa de informação eletrônica tornam-se comuns nos ambientes mais variados. A tão falada biblioteca virtual (potencialmente infinita), um hiper-espaço "sem paredes para livros sem páginas" (Browning, 1993), já começou sua longa caminhada para tornar-se realidade, disponibilizando cada vez mais, além de OPACS (Online Public Access Catalogs), o texto integral de um número crescente de obras (como as do Projeto Gutenberg, na Internet).

Apesar da impressão analógica (em papel) ser ainda indispensável (visto que atende às necessidades de um grande público, algo que não mudará num futuro próximo), mais e mais autores e editores optam por documentos eletrônicos como formato alternativo, eficiente e rendoso. A esmagadora maioria deles, entretanto, segue criando documentos dentro dos velhos limites e formas: códigos alfabéticos e ferramentas usadas na mídia impressa, extática. Para estes, a mudança de suporte ainda não desencadeou a necessidade de repensar os paradigmas tradicionais de seu ofício. Seus produtos, ainda que eletrônicos, não refletem as possibilidades da nova mídia.

Os novos suportes digitais permitem, por exemplo criar um novo livro eletrônico em forma hipertextual, que contenha um texto fragmentário e potencial (um conjunto de pequenas unidades independentes) em vez de uma grande obra orgânica. Esta fragmentação é intencional; não significa desintegração, mas um estado de perpétua organização e formação de novos conjuntos. A unidade e coerência de um hipertexto derivam justamente da permanente mudança de relações entre seus elementos. Isso requer a busca de outra definição de texto, que suplemente a nossa tradicional, de unidade de voz e de argumento analítico, definição esta que ofereça modelos diferentes dos de uma página impressa.

 

Ferramenta ou mídia?

Diversas atividades relacionadas com a informação textual já estão sendo realizadas com computador (processamento de textos, diagramação de jornais e revistas, correio eletrônico, banco de dados hierárquico e associativo, etc.). Um crescente número de outras atividades (como desenho, manipulação de imagens, animação, produção de vídeo e áudio) também estão se tornando digitais e podem ser executadas e aglutinadas de maneira inédita. Tudo isto faz parte desta mudança radical na maneira como a informação é manipulada, apresentada, arquivada, recuperada e disseminada.

O texto eletrônico como etapa intermediária (softcopy), como ferramenta de preparação para o texto impresso (hardcopy), cede cada vez mais lugar `a tela como produto final. Argumentos de que a legibilidade desta última é mensuravelmente menor e a portabilidade do livro impresso é maior perdem importância diante da dramática evolução do "estado-da-arte" da tecnologia digital.

A tendência de representar a informação eletrônica, de natureza múltipla (expressa na mudança de uma interface exclusivamente em ASCII por uma icônica), é ainda muito recente. A idéia de empregar metáforas como base para o interface design contribuiu parcialmente para mudar o conceito de "computador como uma ferramenta", para a idéia de "computador como o representante de um mundo", ou de "um sistema virtual, no qual a pessoa pode interagir mais ou menos diretamente com a representação" (Laurel, 1991, p. 127). Exemplo disto é a desktop metaphor. Com ela, sistemas de manipulação direta (que os Macintosh inauguraram), tentam construir uma ponte representando o mundo dos computadores como uma coleção de objetos análogos aos objetos do mundo real. A interface Macintosh, hoje imitada parcialmente pelo sistema operacional Windows, resgatou a tecnologia digital do intimidante mundo da Ciência da Computação para o domínio do artista, do humanista, e também do leigo. O computador passou a fazer uso de sua capacidade de representar ações das quais seres humanos podem participar interativamente.

Ao contrário dos séculos de aprimoramento da tecnologia do papel e da tipografia, a tecnologia digital teve apenas umas poucas décadas para evoluir. Mas o desejo de desenvolver novas interfaces, ainda mais intuitivas e transparentes, tem estimulado um número expressivo de equipes interdisciplinares. Por exemplo, as que procuram superar as barreiras do teclado e do mouse a fim de criar computadores como "espaço" (Weinberg, 1995), em que a presença do usuário é percebida de outra maneira: voz e/ou gestos são decodificados numa interação em que objetos eletrônicos inteligentes "possuem suas próprias capacidades e comportamentos" (p. 135).

Ao mesmo tempo, um grupo crescente de pessoas tem usado o computador não como ferramenta, mas como mídia, e a explosão e a variedade de informações disponibilizadas na Internet é a melhor ilustração disto.

 

Novos Paradigmas

A tecnologia da imprensa encorajou-nos a pensar no texto impresso como um monumento permanente ao seu autor. Diferentemente, o texto eletrônico - principalmente o hipertexto - nega a fixedez de um texto e possibilita novos diálogos entre autor e leitor. Com o hipertexto, reduz-se a distância entre os diferentes papéis, convertendo o leitor num co-autor: com sua leitura ele constroi seu próprio texto, que pertence exclusivamente a esse ato particular de leitura. Esse novo diálogo tem muito a ver com as teorias literárias e semiológicas contemporâneas, particularmente as de Derrida e Barthes. Textos interativos, que permitem ao leitor explorar enredos alternativos, bem como experimentar o mesmo sob diferentes pontos-de-vista, tornam-se finalmente possíveis. E, com a evolução da tecnologia, os "dados baseados-em-tempo" (como vídeo e áudio), além das imagens estáticas, tornam-se cada vez mais parte indissolúvel da "publicação".

McLuhan (1967) considerou a imprensa o primeiro exemplo de produção em massa. A tecnologia da televisão caracterizou-se por estimular a passividade e a homogeneidade da audiência. Livros e programas de televisão estão "prontos" , restando ao leitor/telespectador apenas o papel de consumidor. Diferentemente, interatividade propiciada pela tecnologia digital resgata a participação do leitor, convidando-o a interferir e reconstruir, com suas opções, os conteúdos apresentados, deixando de ser apenas uma audiência diante das idéias e palavras de uma "autor-idade".

Outro passo nessa direção são os BBS e o correio eletrônico em geral, em que o princípio da múltipla autoria assume novas proporções, permitindo que diferentes participantes, em locais e momentos diferentes, troquem textos e reescrevam ou comentem o que recebem, movendo-se alternadamente entre o papel de leitor e de escritor.

O texto digital também altera a relação entre bibliotecários, leitores, e editores. Com o potencial para criar uma coleção virtualmente ilimitada, baseada em fontes de informação eletrônica, o bibliotecário transforma-se num "filtrador" e, resgatando suas origens medievais, num "editor", podendo disponibilizar cópias eletrônicas de documentos. O leitor, em vez de dirigir-se a uma "ilha de informação", i.e., à biblioteca, pode agora navegar (ou afogar-se...) num "oceano de informação". "Assim como os monges escribas, na época medieval, leram , escreveram, e editaram, os information surfers atuais, navegando pelos serviços on-line, executam as mesmas tarefas: seletivamente absorvendo, recriando e editando em tempo real"(Saffo, 1993, p. 48).

Outra relação tradicional que se altera é a entre editor e autor. O segundo pode agora prescindir do primeiro (cujo poder derivava do custo e da dificuldade de impressão) e "publicar-se" seja através de produções pessoais via desktop publishing, seja através de veículos mais amplos como a Internet. O "direito-autoral", outra invenção do mundo da imprensa, também começa a ser questionado e, a despeito de inúmeras tentativas para preservá-lo, marcha para uma lenta porém inexorável extinção.

 

Literacy ou Letteracy?

O temor de que a televisão e o computador comprometam a capacidade de leitura de texto (literacy) das gerações futuras encontram um adversário em Papert (1993) que, ao questionar o currículo tradicional das escolas face ao surgimento das novas tecnologias, faz uma distinção entre os conceitos de literacy e letteracy: o primeiro diz respeito a capacidade de decodificar sentido e construir conhecimento a partir de símbolos; o segundo, cada vez mais dissociado do anterior, refere-se `a capacidade de decodificar informação representada exclusivamente por caracteres alfabéticos. E, contrariando ainda a visão pessimista e apocalíptica de muitos sobre o destino da escrita alfabética no final deste milênio, Saffo (1993) aponta que a letteracy está bem viva e que a revolução eletrônica, mesmo que transformando profundamente a comunicação humana, está apenas descolando a palavra do suporte oferecido pelo papel. A proliferação de e-mail na Internet, por exemplo, representa a maior explosão na escrita desde o século XVIII. O estado da arte dos "infonautas" de hoje está inundando o ciberespaço com gigabite após gigabite de prosa em ASCII (p. 48).

Quanto à literacy, é importante enfatizar que ela é mais do que a habilidade de decodificar caracteres e construir palavras: é o processo de construir coerência com um propósito, de comunicar significados. Provavelmente, o computador seja apenas uma tecnologia pela qual a literacy será projetada no início do milênio vindouro, antes de ser substituída com vantagem por alguma outra tecnologia, como talvez o vídeo-holográfico.

 

Conclusão

Quando os tipos móveis tornaram a informação disponível para além dos limites do mundo medieval, produziram uma explosão de conhecimento que lançou a civilização ocidental na Idade Moderna. É inevitável que nos perguntemos sobre que tipo de conhecimento, que tipos de mudança a transição do impresso para o digital irá gerar?

Os cursos de Comunicação precisam refletir e estimular seus alunos a compartilhar o questionamento sobre essas questões. Somos todos parceiros, relutantes ou entusiasmados, necessitando adquirir novas habilidades (literacy digital) para alcançar velhas metas (informação, conhecimento). À medida que o mundo caminha para tornar-se uma rede de fibras ópticas, interconectando pessoas e máquinas, novas formas de colaboração tendem a aparecer, de modo que nossos conceitos sobre comunicação e informação precisarão ser reavaliados. A convergência de tecnologias, pedagogias e teorias científicas e literárias indica a complexidade e a riqueza da revolução digital.

A transformação em curso dos paradigmas do texto e da informação é ampla e profunda, mas ainda é muito cedo para perceber com nitidez suas consequências. Muitas coisas ainda estão por ser definidas. Por exemplo, quais as novas concepções de autoria e propriedade no mundo digital? Que novos gêneros literários evolverão desta tecnologia? Até que ponto o significado é criado pela estrutura? Será preciso rever nossas posições epistemológicas sobre a natureza da informação, alfabetização e comunicação?

A influência de séculos de modelo impresso é ainda tão forte que a maioria das metáforas que usamos para descrever e estimular a nova mídia incorporam uma terminologia e imagens a ele associadas. Como em qualquer mudança de paradigma, serão necessários décadas (ou séculos?) para desenvolvermos a familiaridade e a intuição com a interface digital necessárias para que esta - seja de que tipo for - se torne transparente. Será necessário também que uma ampla gama de pessoas se aproprie dessa tecnologia para que aconteça uma transformação cognitiva cumulativa.

Vivemos ainda sob o impacto da novidade tecnológica. Uma questão metafórica se adequa a tal situação: o que seria da linguagem cinematográfica se a platéia se preocupasse em analisar apenas o projetor? Está na hora de olharmos para o filme, de examinarmos o conteúdo e não apenas o suporte.

BIBLIOGRAFIA

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